Amem a Amendoeira
A amendoeira, caída no meio da pista, exibe sua morte estúpida. Morte que mata a todos nós, com um golpe de moto serra pelas costas. Amendoeira importa! Árvore é vida!
Os capatazes do progresso decadente desconsideram o reino vegetal como usina divina, que transforma a luz, produz ar, armazena água e guarda os espíritos. Os negociantes da política usurpadora renegam a sabedoria ancestral do equilíbrio natural. Toda planta existe para fornecer vida e proteger os viventes. Pela suprema lei da natureza, a amendoeira tem direito à existência, como qualquer outro ser vivo. Mas a arrogância autoritária dos projetos devastadores não reconhece direitos, nem respeita, os protocolos de vida do planeta. E, assim, se faz o desconcerto do mundo.
O que os pragmáticos insensíveis não esperavam é que, de cada árvore abatida, brotariam novas mudas de esperança. Não contavam que, das raizes mortas, surgiriam forças fantásticas de combate à destruição ambiental. Os falsos profetas esqueceram o que está escrito na bíblia (Jó 14): “Há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará e não cessarão seus renovos”.
A amendoeira é símbolo de renovação. Em hebraico, amendoeira é “shoked” - vigia. É a primeira árvore que floresce no meio do inverno. E, como fiel vigilante, anuncia a chegada da primavera. Em outra passagem bíblica, Jesus mostra uma vara de amendoeira a Jeremias, como símbolo de sua atenção sobre os atos da humanidade: “Estou vigiando para que a minha palavra se cumpra”.
As maritacas, afugentadas de seu dormitório, acordaram a cidade com seus gritos de socorro e semearam o alarme nas consciências cidadãs. A amendoeira não morreu em vão. O tronco caído fez o povo se levantar contra o verdecídio na Avenida.
A árvore tombada deixa uma uma semente de fé e uma herança de luta. Há muito o que fazer. Com amor. Amemos as amendoeiras. Amém.
O autor Ramayana Vargens é jornalista, professor e membro da Academia de Letras de Ilhéus, ocupando a Cadeira 11 (substituindo o professor Dorival de Freitas, tendo como Patrono Carlos Ribeiro e fundador Washington Landulfo)